As memórias da baleação

Francisco Henriques e Luís Bicudo
#Chronicle

«Eu morava num sítio chamado Canada da Levada. O meu pai derretia baleia aqui, era dos que trabalhava a derreter baleia, e eu lembro-me de ir ali em baixo, antes de chegar à Casa dos Tiagos . Aferrei-me à saia da minha mãe e disse: "Tenho medo", e ela disse "Medo de quê?", "Da casa grande". Aquela casa metia-me medo. Voltou a escurecer. Não me lembro de passar o resto do caminho. Só me lembro de chegar lá abaixo e ver o meu pai. Vinha do lado dos caldeiros para cá, com uma ferramenta, tinha um cabo, mais tarde soube o nome, não sei se é o verdadeiro, mas é o que nós chamamos a espelha, o que cortava o toucinho na baleia para depois ser içado no guindaste e vir para os caldeiros derreter. Voltou a escurecer. Já não me lembro de vir para cima. É um quadro que me ficou na mente. Não devia ter mais de três anos, o meu pai faleceu daí a um ano.»

Entrevista a Eduardo Reis de Borba. Vila do Topo, ilha de São Jorge,  18 de Agosto de 2015. 

Durante mais de um século, a caça à baleia foi uma actividade fundamental nas comunidades marítimas do arquipélago. O passado da baleação é hoje recordado na monumentalização das fábricas e casas dos botes, na reconstrução dos botes baleeiros e na celebração das regatas. Estes rituais deram uma segunda vida à baleação, tornando-a num objecto de património cultural. Mas e as memórias dos baleeiros? O que nos dizem as vozes do passado? Será que as podemos também considerar como património cultural da região?

Foi para responder a estas questões que criámos o projeto Arquivo de Memórias da Baleação. O objectivo era claro: encontrar todos os baleeiros vivos no arquipélago e filmar as entrevistas para reter as histórias de vida que estão a desaparecer. Numa segunda fase, construímos um arquivo com múltiplos pontos de acesso aos temas, nomes e locais referidos nas entrevistas, bem como as transcrições dos excertos mais relevantes, para serem disponibilizadas ao público no futuro. 

A constituição de um arquivo de história oral é um processo sinuoso, cheio de dificuldades criadas pela natureza subjectiva das fontes. Mas o seu valor é incalculável. Basta olharmos para outros exemplos. Em Chernobyl, o trabalho de Svetlana Alexievich revelou o extraordinário impacto do desastre nuclear a partir do discurso directo das vítimas. O mesmo se aplica à recolha de memórias dos sobreviventes do Holocausto que previne qualquer tentação de negacionismo. Nas comunidades da pesca, caracterizadas pela transmissão informal de conhecimentos empíricos e por uma visão particular da ecologia humana, a recolha de memórias é indispensável para reconstruir a realidade histórica. 

António Grota. Vila do Porto, ilha de Santa Maria, 29 de Abril de 2016.
António Grota. Vila do Porto, ilha de Santa Maria, 29 de Abril de 2016.

Num primeiro balanço, o projecto traz alguns resultados surpreendentes. A indústria baleeira foi um elo de ligação do arquipélago com uma intensa mobilidade de homens, e as suas famílias, entre todas as ilhas. A baleação, assente na exportação dos óleos e farinhas de cachalote, foi de enorme importância relativa numa economia com práticas de subsistência, e manteve um papel relevante até aos anos setenta do século passado, mesmo com a expansão dos serviços públicos e a diversificação das actividades económicas. Com as remunerações ou soldadas, os baleeiros construíram casas, compraram terrenos, permitiram que os seus filhos seguissem os estudos. Além desse impacto material, a baleação foi, em muitos locais, um ritual de transição para a vida adulta.

Estas ideias gerais não representam a diversidade de registos das entrevistas. É a singularidade de cada história de vida que constitui a maior riqueza do arquivo. 

José Lourenço de Azevedo e Francisco da Silva. Santa Cruz das Ribeiras, ilha do Pico, 25 de Agosto de 2010.
José Lourenço de Azevedo e Francisco da Silva. Santa Cruz das Ribeiras, ilha do Pico, 25 de Agosto de 2010.

A preservação das memórias não está isenta de controvérsia. Por um lado, os relatos sobre a vida animal diferem dos padrões actuais de sustentabilidade ambiental e de um uso não-letal dos mamíferos marinhos em actividades como a observação turística. Por outro, a heroicidade dos baleeiros, presente no discurso do património baleeiro, inibe o conhecimento sobre as agruras, as alegrias e os dilemas de cada indivíduo.

Francisco Branco. Praia (São Mateus), ilha Graciosa, 23 de Abril de 2016.
Francisco Branco. Praia (São Mateus), ilha Graciosa, 23 de Abril de 2016.

Este trabalho prossegue a longa recolha feita por Dias de Melo, na ilha do Pico, nos anos oitenta do século XX, publicada em Na Memórias das Gentes. Ontem como hoje, é preciso desconstruir o «feitiço de balear» a partir das histórias quotidianas e experiências pessoais que motivaram a baleação. E também evitar que a memória social deixe no esquecimento as memórias dos baleeiros. 

Podem as vozes da baleação serem consideradas património cultural? A nossa resposta é sim, na medida em que elas exibem um sistema de valores, crenças e experiências únicas que representam o nosso passado.  


Vídeo sobre o projecto disponível aqui.

Francisco Henriques é licenciado em História pela Universidade da Cantábria. Publicou o livro A Baleação e o Estado Novo (2016) e diversos artigos sobre história contemporânea e património cultural. Mais recentemente colaborou com o Museu Francisco de Lacerda, na ilha de São Jorge, na conceção da nova exposição permanente. 

Luís Bicudo é licenciado em cinema pela Escola Superior de Teatro e Cinema do Instituto Politécnico de Lisboa. Realizou o filme documentário “Baleias e Baleeiros” (2013). Em 2016 fundou a empresa "Our Island, Lda." e desde então divide a sua actividade profissional entre o cinema, o empreendedorismo e o turismo de natureza.


*Texto escrito de acordo com a antiga ortografia