Impropriamente

Helena Barros
#Crónica

Quando era eu um ser em formação (talvez tenhamos que o ser ao longo do tempo, independentemente da idade), ainda com poucos anos de vida, sempre que contava uma história, que me englobava a mim e aos outros, a enumeração começava com: eu, a Joana, a Isabel, a Inês, a Rute, etc. A minha avó rapidamente – e constantemente – trauteava esta lengalenga espanhola:

Burriquito delante
Para que no se espante


E com isto, ela ensinou-me que devemos colocar o outro em primeiro lugar. Respeitá-lo. Que um mundo justo é aquele que se pauta por um olhar, não apenas em frente, mas periférico, que englobe a nossa comunidade. E, agora que penso nisso, talvez tenha sido esse o motivo pelo qual, desde sempre, me quis tornar numa profissional de comunicação. Não será a linguagem a nossa maior ferramenta para concretizar esta justiça? 

Acredito que sim. Acredito que é a Palavra que nos dá o poder de mudar, por via do questionamento que nos provoca ou pela atenção que nos faz ter por determinados temas e conceitos. 

A humanidade está à procura de si mesma. E quando vejo que na agenda do dia estão os direitos humanos e, concretamente, a igualdade de género, acredito que há esperança nesta humanidade que procura ser salva. Salvar a humanidade – salvarmo-nos – começa com a integração e necessidade de criação:

“Queremos mostrar os Açores contemporâneos” 
“Queremos desafiar o conservadorismo”


Estas são duas frases, afirmativas, do conceito do que é a Imprópria – Mostra de Cinema de Igualdade de Género. 

Equipa Imprópria
Equipa Imprópria


Podia enumerar aqui os vários indicadores que nos mostram o mundo desigual em que ainda vivemos e que nos faz querer continuar esta Imprópria. Mas o horizonte é maior quando o vemos já a navegar, em movimento, e não em terra, sem a coragem de lá chegar. 

Corajosamente, em 2019, inspirados no 5.º objetivo de Desenvolvimento Sustentável da Agenda 2030, seis amigos reuniram-se e preparam uma mostra de curtas que destaca o tema da igualdade de género, na cidade de Ponta Delgada, em São Miguel. Continuamos a navegar: para além de Ponta Delgada, já chegámos a Rabo de Peixe, aos Arrifes, a Água de Pau, aos Fenais da Ajuda e a Vila do Porto, em Santa Maria. Continuaremos nessa viagem: em 2021, desembarcaremos também na ilha Terceira, a par de São Miguel e Santa Maria. Numa terceira edição que, uma vez mais, se associa aos Dia Municipal da Igualdade de Género, celebrado todos os anos a 24 de outubro (fiquem atentos, novidades em breve!)

É um trabalho em rede. É um trabalho que não termina ao vermos os créditos de cada um dos filmes. É um trabalho que prova a importância da cultura como transmissora de conhecimento, de pertença a uma comunidade que se quer mais justa.

Sou mulher. Já fui machista (sem saber que o era). Sou feminista (porque o quero ser!) Sou mulher, mas podia ser homem. Podia não ser nenhum dos dois. O que é que isso interessa neste mundo que se diz aberto e global? Somos pessoas. Diferentes. E enquanto não percebermos que é nessa diferença que reside a nossa maior autenticidade (individual e coletiva), então, continuará a valer a pena lutar por puxar a âncora que permanece presa aos dogmas do passado.  “Puxa a âncora, rapariga!”. Puxaremos sempre para que igualdade nunca deixe de ser o respeito pela diversidade, num caminho que tem de ser disruptivo, mas cujo maior desafio é ser, também, integrativo.

O mundo só se tornará mais justo se tivermos coragem de ser Impróprios, de lutar por todos. E lutar não é apenas sinónimo de confronto. Lutar é incorporar, resistir e persistir. Mesmo que canse hoje, valerá a pena acordar amanhã, nesse mundo mais justo. Hoje, entendo que talvez a minha motivação para este mundo justo tenha nascido numa lengalenga contada – repetidamente –pela minha avó. Que nunca nos faltem avós para contar lengalengas com mensagens que devem permanentemente ser repetidas. Ela não queria ser Imprópria, aliás, diz-me que já não tem idade, mas talvez sempre o tenha sido, apesar da pressão do seu passado.


Helena Barros

Natural da Ilha de Santa Maria, formada em jornalismo, profissional de comunicação, membro de diversas associações culturais, defensora de uma participação ativa na comunidade. Atualmente, faz produção na RTP Açores, integra a equipa da Imprópria – Mostra de Cinema de Igualdade de Género e do Núcleo de São Miguel da Amnistia Internacional.
Fez assessoria de comunicação em projetos como a Yuzin, o Walk&Talk, o Tremor, o Arquipélago – Centro de Artes Contemporâneas e no XII Governo Regional dos Açores (Secretaria Regional da Energia, Ambiente e Turismo).

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