A Marina da Horta é o meu jardim

Rita Mendes
#Vamos desopilar


Vale a pena “mergulhar” na Baía da Horta. Entrar dentro dela, contemplar a sua extensão e os seus detalhes. E sobretudo abrirmo-nos ao que ela tem de bom para se entranhar em nós.

Como uma das 44 baías aceites no Clube das Mais Belas Baías do Mundo, no mínimo, esta baía oferece-nos a sua beleza “postal”. Protegida por dois belos montes verdes, a Espalamaca e o Monte da Guia, e colada à cidade da Horta, abre-se em direcção à majestosa ilha do Pico. Grande parte deste espaço é ocupado pela Marina da Horta que, para além de acolher diferentes tipos de embarcações, sobretudo veleiros, torna-se icónica pelas pinturas coloridas e desbotadas, que lhe preenchem os muros e o chão. São pequenos quadros que os iatistas, por superstição, não deixam de fazer para garantir sorte na travessia seguinte.

© Tomas Melo
© Rita Mendes
© Rita Mendes
© Tomas Melo
© Rita Mendes

A MARINA DA HORTA

A Marina da Horta é o meu jardim. A um só lance de escadas da cidade, usufruo imediatamente de mais silêncio e menos tráfego automóvel. Observo a vida dos  caranguejos fidalgos nas rochas e enérgicos peixinhos de roda dos cascos dos barcos. Caminhando pelos pontões, percebo que cada embarcação, se observada lentamente, faz-me imaginar uma saída para o mar: pesca nocturna, investigação científica da vida  marinha, aprendizagens várias a bordo de um navio-escola, observação de cetáceos e outros animais marinhos e, claro, viagens românticas ao vento, no centro do círculo azul.
Uma forma bonita de se perceber que a terra é redonda: navegar em alto-mar, sem terra à vista.


© Rita Mendes
© Rita Mendes


Esta marina está aberta todo o ano e oferece porto seguro e abastecimento a quem atravessa o Atlântico Norte, normalmente vindo das Américas, com destino ao continente europeu. Mas é de Março a Junho que mais velejadores a invadem, ao ponto de muitos terem de ficar ancorados na baía. É durante essa altura que podemos, por exemplo e com sorte, encontrar e visitar três dos quatro barcos de transporte de carga à vela a operar em todo mundo: o Tres Hombres, o Avontuur e o De Galant. Veleiros de 2 mastros e com mais de 30 metros, que transportam carga livre de emissões de CO2, como forma de nos lembrar quão poluentes são os navios de carga transatlânticos e quão importante seria repensar essa prática. Vale a pena, depois de conhecer estes barcos e estes projectos, ou outros, subir as escadas em direcção ao Peter Café Sport e beber um gin com alguém da tripulação. 

Cada marinheiro que chega numa casa flutuante tem sempre histórias para contar e motivos para celebrar. Está de novo em terra, divide-se entre o orgulho da travessia transatlântica e a humildade do respeito pelo mar e pela natureza.

© Rita Mendes
© Rita Mendes

O FESTIVAL MARAVILHA

Não podemos deixar parar a cultura, a festa, a alegria. Foi com este mote e em plena pandemia que a Associação Cultural Fazendo chegou à primeira edição flutuante do Festival Maravilha, em 2021. Este é um festival bienal e a próxima edição está assim agendada para o Verão de 2023. Esperam-se, na Baía da Horta, espectáculos de música, performances teatrais, artes plásticas e artes circenses trazidas por artistas internacionais, nacionais e locais.


© Navarro Llombart
© Navarro Llombart


Este Festival na Baía da Horta é especial, na primeira edição ouvia-se repetidamente a palavra “magia”. Magia, sim, mas não só da parte dos talentosos artistas. Ver e sentir o próprio público a fazer parte do espectáculo quando, em tempos estranhos de distanciamento social, tudo fez para conseguir chegar ao sopé dos palcos marinhos: uns a nado, com bóias ou pranchas, outros em pequenas embarcações, com ou sem motor, ou a bordo de, mais ou menos sofisticados, veleiros. Improvisou-se assim um colorido e animado anfiteatro flutuante num belo festival aquático, que tornou o público e artistas cúmplices num mesmo “barco doido”.


© Nuno Potes
© Rita Mendes
© Nuno Potes


Rita Mendes, professora de Educação Visual e Tecnológica e coordenadora do Plano Nacional das Artes num agrupamento de escolas da ilha do Faial. Fez mestrado em Cidadania Ambiental e Participação e faz parte da Associação Cultural Fazendo.


*Texto escrito de acordo com a antiga ortografia