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9x9 Faial: Judite Canha Fernandes promove oficina de escrita

A escritora Judite Canha Fernandes foi a artista selecionada para desenvolver o projeto “cartas de um vulcão para o mundo”, na ilha do Faial, no âmbito do “9x9 - Artistas são Ilhas, Ilhas são Artistas”, o programa piloto de residências artísticas do Azores 2027, em parceria com o Arquipélago - Centro de Artes Contemporâneas e a Associação Cultural Part'ilha. 

O objetivo do projeto da escritora é “falar de voz e providenciar experiências literárias de narração na primeira pessoa, aproveitando o mote de uma residência na casa onde viveu o primeiro Presidente da República Portuguesa”, estando, também, prevista a realização de uma palestra e de uma oficina de escrita gratuita, repartida por três sessões, cujas incrições estão a decorrer. Os textos que resultarem desta oficina serão apresentados numa mostra pública no dia 4 de novembro, às 21h00, na Casa Manuel de Arriaga. 

Sinopse de “cartas de um vulcão para o mundo”

Soube desde cedo ser aberrante. Na infância, porque não ia à missa, ou porque meu pai e minha mãe eram comunistas. Na adolescência, percebi ser aberrante por ser pobre. Fui parar à turma dos meninos ricos, que viam enorme estranheza em ser excelente em física ou línguas, e pareciam não perdoar aquele florescimento da escassez. Gostava de namorar, mais uma vez, aberrante, em vários momentos merecedora de epítetos que prefiro não repetir. Já adulta, a estranheza seria o feminismo ou, ao ser mãe, ser-me claro tal não negar a minha existência enquanto ser individual.

Pontualmente, era também aberrante quando me dizia açoriana, como se tal me envolvesse numa estranha carga exótica. Com o tempo aprendi a ser, tranquilamente, aberrante. Vivi, andei para cá e para lá no mundo, levando no corpo essa marca que sempre me causou perplexidade. Porque eu, de mim para mim, nunca percebi a razão de tanta estranheza com minhas pequenas peculiaridades. Quando me perguntava como, ou se, devia reagir aos rótulos que o mundo me ia colocando, vinham-me à mente dois movimentos divergentes. Um gesto, que repito desde menina, pôr-me de cócoras para observar o céu, e a voz de minha avó materna dizendo: “Quando mais te abaixas, mais o cu te aparece.” Este projeto pretende falar de voz e providenciar experiências literárias de narração na primeira pessoa, aproveitando o mote de uma residência na casa onde viveu o primeiro Presidente da República Portuguesa.

Porque aberrante, na verdade, é uma democracia que não incorpora em igualdade a multiplicidade dos corpos. Para a astronomia, uma aberração é tão só o movimento aparente das estrelas. E eu se calhar deveria ter começado pelo outro princípio, dizer que as cartas de um vulcão para o mundo são assim, feridas abertas em permanente busca de cura, e que este projeto vai articular este desejo de cura numa palestra, numa oficina e numa carta.

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Programa da Residência Artística

sexta, 26 novembro – 18h30
Conversa Santos da Casa Fazem Milagres, na Casa Manuel de Arriaga

Oficina de Escrita (três sessões): "Cartas de um vulcão. Exercícios literários e Insularidade" na Casa Manuel de Arriaga

sábado, 27 de novembro – 10h30-13h30
1. "Exercícios de estímulo criativo"

domingo, 28 de novembro – 10h30-13h30
2. "Tempo de escrita" (exercícios focados em três géneros literários: Epistolar; Microconto; Poesia) 

sexta-feira, 3 de dezembro – 17h30-20h30
 3. "Debate sobre as sessões de oficina"

*A oficina de escrita destina-se a maiores de 16 anos, sendo necessária inscrição através do email oficinajuditecanhafernandes@gmail.com.
* A atividade é limitada a 15 participantes.


No sábado, 4 de dezembro, haverá uma mostra pública dos textos criados.